educação especial

Sunday, October 08, 2006

Alfabetização e deficiência mental

Alfabetização e deficiência mental
Rede SACI16/08/2004
Artigo da professora Marcia de A . Moura
Marcia de A . Moura*
Entenda-se que no educando com deficiência mental (DM) tal como nos outros indivíduos, o comportamento social e pessoal é muito variável e não se pode falar de características iguais em todos os indivíduos com DM . Não existem duas pessoas deficientes ou não, que possuam as mesmas experiências ambientais ou a mesma constituição biológica.
As crianças DM apresentam dificuldades na aprendizagem de conceitos abstratos, tendem a esquecer fatos com facilidade, demostram dificuldade na resolução de problemas, não significando incapacidade para alfabetizarem-se podendo atingir os objetivos escolares de forma mais lenta requerendo um ato pedagógico diferenciado que respeite limitações.
Imagina-se erroneamente, que pessoas portadoras de deficiência são incapazes e pouco produtivas, usuárias eternas de serviços assistenciais. Engendram-se, assim os estigmas e os estereótipos que descriminam e marginalizam, colocando os deficientes como pessoas atípicas, numa dimensão de alteridade comprometida pela capacidade representacional de um determinado sujeito psicológico, dito normal, inserido numa determinada cultura que privilegia a "norma". (Edler Carvalho,1998:102)
O processo de alfabetização inclui muitos fatores e estar cientes de como se dá o processo de aquisição de conhecimento, de como a criança se situa em termos de desenvolvimento emocional, de como vem evoluindo seu processo de interação social e da realidade lingüistica que está envolvida, nos dará subsídios para selecionar métodos, técnicas e buscar meios de respeitar o ritmo de cada educando, favorecendo assim que a alfabetização ocorra de maneira agradável e produtiva.
Muitos pesquisadores estudaram como se processa a aprendizagem e suas implicações, dentre eles citaremos Piaget e Vigotsky.
A teoria psicogenética de Piaget permite uma visão dinâmica e construtivista do conhecimento e do pensamento, já que admite uma participação ativa da criança na construção de diferenciações das estruturas da consciência. Segundo Piaget, as estruturas de inteligência não são herdadas, nem constituem uma "folha em branco" a ser preenchida pelos condicionamentos. Na perspectiva construtivista, herdamos um organismo formado por uma série de estruturas biológicas e neurológicas que vão dar lugar ao surgimento de certas estruturas mentais que vão sendo construídas e organizadas sucessivamente no decorrer do processo de maturação biológica, à medida que a criança age e interage com o meio dos objetos e seu ambiente social.
Para Piaget, a forma de raciocinar e de aprender passa por estágios. Por volta dos dois anos, ela evolui do estágio sensório motor, em que a ação envolve os órgãos sensoriais e os reflexos neurológicos básicos e o pensamento se dá somente sobre coisas presentes na ação que desenvolve, para o operatório. Outra progressão se dá por volta dos 7 anos, quando ela passa para o estágio operacional concreto. Consegue refletir sobre o universo das coisas e dos fenômenos, para concluir um raciocínio, leva em consideração as relações entre os objetos. Por volta dos 12 anos, chega ao estágio operacional formal, onde passa pensar em coisas completamente abstratas, sem necessitar relação direta com o concreto.
Os estágios seguem as mesmas seqüências em todas as crianças, independente do grupo, lugar ou sociedade em que vivem. Nenhum dos estágios deve ser omitido ou saltado. Embora aja certo limite de idade para atingir cada estágio, pode haver alterações em torno do padrão médio, dependendo de fatores genéticos e experiências específicas da criança. A criança deficiência mental também desenvolve a inteligência de modo semelhante, com algumas peculiaridades dentre elas referente ao seu dinamismo, ou seja, o processo de desenvolvimento é mais lentificado.
Inspirando-se na teoria de Piaget, a psicóloga argentina Emília Ferreiro efetuou estudos sobre a psicogênese da leitura e da escrita. Definiu quatro níveis na psicogenênese da alfabetização: pré-silábico, silábico, silábico alfabético e alfabético.
No nível pré-silábico, primeiras tentativas da criança em escrever, estão desvinculadas da correspondência entre grafemos e fonemas, a criança associa o tamanho do objeto com o tamanho da palavra ou com o número de letras desta, letras e números são a mesma coisa: ela pensa que só pode ler um texto com imagem, e que as palavras com menos de três letras não se pode escrever. Depois de um tempo a criança procura identificar uma palavra pela inicial e só a inicial basta para representá-la.
Ao passar para o nível silábico, a primeira letra já não é suficiente para se ler a palavra e a criança faz hipótese cada vez mais complexas, chegando a usar uma letra para cada sílaba.
No nível silábico alfabético, ela busca uma correspondência entre som e grafia, representando uma sílaba por uma letra e simultaneamente outra sílaba para todas as suas letras.
No nível alfabético a criança consegue estruturar sistemas de escrita e de leitura na sua cabeça, fazendo correspondência entre grafia e fonema.
Emília Ferreiro acredita que muito antes de ler e escrever, a criança age sobre a língua escrita, brincando e levantando hipóteses, pois ao ingressar na escola as crianças trazem suas vivências, as suas leituras de mundo, a sua historicidade, as suas experiências de letramento. Essas experiências pessoais juntamente com situações de interação devem ser consideradas para que o fato do processo de alfabetização seja significativo para os alunos.
Vigotsky nos traz a teoria socio-interacionista que tem como objetivo principal" caracterizar os aspectos tipicamente humanos do comportamento e elaborar hipóteses de como essas características se formam ao longo da história humana e de como se desenvolvem durante a vida do indivíduo".
Vigotsky trabalha com o conceito de zonas de desenvolvimento. No seu entender há uma zona de desenvolvimento potencial que se refere àquilo que a pessoa ainda não domina, mas é capaz de realizar com a ajuda de alguém; uma zona de desenvolvimento real, que se caracteriza por aquilo que a pessoa já tem consolidado, já sabe, já conhece. E a zona de desenvolvimento proximal, o que a criança faz hoje com ajuda de um adulto ou de outra criança, ela será capaz de fazer, amanhã, sozinha.
Segundo Vigotsky toda aprendizagem é um processo, onde há necessidade da interação entre pessoas, pois uns aprendem com os outros. E ainda, que não há aprendizagem sem um conhecimento prévio, que virá, de início deste outro. Ele nos apresenta o processo de aprendizagem numa forma de aspiral crescente. A partir do momento que um aprendizado é interiorizado, este passa a reiniciar o processo, estando em permanente aprendizagem.
Vigotsky afirma que as características tipicamente humanas não estão presentes desde o nascimento do indivíduo, nem são meros resultados das pressões do meio externo. Elas resultam da interação dialética do homem e do seu meio sociocultural. Ao mesmo tempo em que o ser humano transforma o seu meio para atender necessidades básicas, transforma-se a si mesmo.(Rego,1995,p.41).
Para Vigotsky não é somente através da aquisição da linguagem falada que o indivíduo adquire formas mais complexas de se relacionar com o mundo que o cerca. O aprendizado da linguagem escrita representa um novo e considerado salto no desenvolvimento da pessoa." Ensina-se às crianças a desenhar letras e construir palavras com elas, mas não se ensina a linguagem escrita. Enfatiza-se de tal forma a mecânica de ler o que está escrito que se acaba obscurecendo a linguagem escrita como tal". (Vigotsky,1994,p.119).
Compreender a criança deficiência mental é o primeiro passo para acreditar nas suas capacidades de aprendizagem e a alfabetização como um processo contínuo ao longo da vida, que se restringe a leitura e a escrita, mas que inicia quando as crianças expressam suas manifestações nas diferentes formas, pois a criança aprende a falar a linguagem do grupo em que vive. À escola cabe desenvolver a linguagem oral que a criança traz, através da atividade pedagógica, que deve garantir a aprendizagem da leitura e da escrita, embasando seus métodos em teorias que realmente auxiliem no processo, não desconsiderando as individualidades dos educandos envolvidos no processo ensino aprendizagem, dentre estes os deficientes mentais.
* Marcia de A . Moura
- Formação nível médio: magistério - Formação acadêmica: licenciatura em pedagogia séries iniciais do ensino fundamental e educação infantil. - Pós graduanda em gestão escolar - Atuação profissional: - Docente : alfabetização (escola estadual, ensino regular) - Docente: educação especial (Educação de Jovens e adultos - EJA - APAE)

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